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Magnésio sérico (e por que pedir o eritrocitário)

Cofator de mais de 600 enzimas — o mineral mais subdiagnosticado da medicina moderna.

O que esse exame mede

Magnésio é o segundo cátion intracelular mais abundante e cofator obrigatório de mais de 600 reações enzimáticas — incluindo síntese de ATP, replicação de DNA, condução nervosa, contração muscular, ativação da vitamina D e regulação da glicemia. Sem magnésio adequado, nenhum sistema do corpo funciona em rendimento ótimo.

Apenas 1% do magnésio corporal está no sangue; 99% está dentro das células e ossos. Por isso o magnésio sérico é um marcador ruim — pode estar 'normal' mesmo com deficiência intracelular significativa. Em estudos populacionais, até 50% dos adultos têm ingesta abaixo da RDA, mas apenas 2-3% mostram magnésio sérico baixo.

O magnésio eritrocitário (medido dentro da hemácia) é muito mais sensível: reflete o estoque intracelular real e detecta deficiências que o magnésio sérico não captura.

Faixa ideal — sérico vs. eritrocitário

Sérico: 2,0-2,4 mg/dL · Eritrocitário: > 5,5 mg/dL (idealmente 6-7)

Referência laboratorial: Magnésio sérico: 1,7-2,4 mg/dL. Eritrocitário: 4,2-6,8 mg/dL.

Para medicina preventiva, sempre solicitar o magnésio eritrocitário (intracelular).

Quando pedir

  • Cãibras musculares, fasciculações, tique palpebral.
  • Insônia, ansiedade, irritabilidade.
  • Hipertensão refratária ou pré-hipertensão.
  • Resistência insulínica e diabetes.
  • Enxaqueca crônica.
  • Antes/durante reposição de vitamina D (Mg é cofator obrigatório).
  • Uso crônico de IPP (omeprazol depleta magnésio).
  • Hipocalemia que não corrige com reposição de potássio.
  • Arritmias, palpitações.

O que eleva

  • Insuficiência renal (raro, mas possível).
  • Suplementação excessiva de magnésio (especialmente óxido).
  • Uso de antiácidos contendo magnésio.
  • Hipotireoidismo grave.

O que reduz

  • Dieta pobre em folhas verdes, sementes, oleaginosas e cacau.
  • Uso crônico de IPP, diuréticos de alça, tiazídicos.
  • Álcool crônico.
  • Diabetes descompensado (perda urinária).
  • Diarreia crônica, doença inflamatória intestinal.
  • Síndromes de má-absorção, bypass gástrico.
  • Estresse crônico (eleva excreção urinária).

Pedir junto com

  • +Vitamina D 25-OH (Mg é cofator).
  • +Potássio + cálcio (eletrólitos relacionados).
  • +PTH.
  • +Insulina + HOMA-IR.
  • +Glicemia + HbA1c.

Por que repor vitamina D sem magnésio é jogar dinheiro fora

A vitamina D precisa ser hidroxilada duas vezes para se tornar ativa: primeiro no fígado (25-hidroxilação) e depois no rim (1-alfa-hidroxilação). Ambas as reações são magnésio-dependentes. Pacientes com deficiência de magnésio podem suplementar 50.000 UI/semana de vitamina D e mesmo assim manter níveis baixos — porque o corpo não consegue ativá-la.

Estudos (Reddy & Edwards, 2019) mostram que repor magnésio antes da vitamina D melhora drasticamente a resposta à reposição. Por isso, na prática clínica, sempre prescreva os dois juntos.

Qual forma de magnésio escolher

  • Glicinato de magnésio: melhor absorção, ótimo para sono e ansiedade, sem efeito laxativo.
  • Treonato de magnésio: atravessa a barreira hematoencefálica — indicado para memória, cognição e neuroproteção.
  • Malato de magnésio: indicado para fadiga e fibromialgia (ciclo de Krebs).
  • Citrato de magnésio: bom custo-benefício, leve efeito laxativo (útil em constipação).
  • Cloreto de magnésio (PA): bom custo, alta biodisponibilidade.
  • Óxido de magnésio: barato mas baixíssima absorção (~4%) — evitar para reposição.

Sinais clínicos de deficiência subclínica

  • Tique palpebral persistente.
  • Cãibras noturnas em panturrilha.
  • Sensação de 'sono não reparador' apesar de horas adequadas.
  • Ansiedade flutuante e irritabilidade pré-menstrual exacerbada.
  • Constipação crônica leve.
  • Pressão arterial 'normal-alta' (130/85) refratária a estilo de vida.

Dose prática de reposição

Adultos com deficiência subclínica: 200-400 mg de magnésio elementar/dia, dividido em 1-2 tomadas. Glicinato à noite (efeito calmante) e malato pela manhã (energia) é uma combinação clássica.

Manter por pelo menos 3 meses antes de reavaliar magnésio eritrocitário. Cuidado com insuficiência renal (eGFR < 30) — risco de hipermagnesemia.

Sinais de alerta

  • !Magnésio sérico < 1,5 mg/dL = risco de arritmia e convulsão.
  • !Hipocalemia + hipocalcemia que não corrige = quase sempre hipomagnesemia oculta. Repor magnésio primeiro.
  • !Uso crônico de IPP > 1 ano sem dosagem de magnésio = negligência (FDA alerta desde 2011).

Referências

  • Reddy P, Edwards LR. Magnesium supplementation in vitamin D deficiency. Am J Ther, 2019;26(1):e124-e132.
  • DiNicolantonio JJ et al. Subclinical magnesium deficiency: a principal driver of cardiovascular disease. Open Heart, 2018;5:e000668.
  • FDA Drug Safety Communication: Low magnesium levels can be associated with long-term use of PPIs. FDA, 2011 (revisado 2019).