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Cistatina C

O marcador moderno de filtração glomerular — independente de massa muscular.

O que esse exame mede

A cistatina C é uma proteína de baixo peso molecular produzida em ritmo praticamente constante por todas as células nucleadas do corpo. É filtrada livremente pelo glomérulo e completamente reabsorvida e catabolizada nos túbulos proximais — o que significa que sua concentração plasmática depende quase exclusivamente da taxa de filtração glomerular (TFG).

Diferente da creatinina, a cistatina C praticamente não é influenciada por massa muscular, sexo, etnia, dieta ou ingesta proteica. Por isso é o marcador de eleição para estimar TFG em populações onde a creatinina engana: idosos sarcopênicos, atletas com muita massa muscular, amputados, pacientes oncológicos, hepatopatas e crianças.

As diretrizes KDIGO (2024) recomendam usar a equação CKD-EPI 2021 que combina creatinina + cistatina C como o melhor estimador de TFG quando há dúvida ou quando a decisão clínica é crítica (transplante, dose de quimioterápico, contraste).

Faixa ideal e interpretação

0,5-1,0 mg/L (eGFR-cys > 90 mL/min/1,73m²)

Referência laboratorial: Faixa de referência laboratorial: 0,53-0,95 mg/L em adultos.

Valores 1,0-1,3 sugerem TFG entre 60-89 (DRC G2). Acima de 1,3 indica DRC G3 ou pior.

Quando pedir

  • Idosos com creatinina 'normal' mas suspeita de DRC oculta.
  • Sarcopenia, caquexia, amputados.
  • Atletas com alta massa muscular (creatinina falsamente alta).
  • Antes de prescrever quimioterápico, vancomicina, gentamicina ou contraste iodado.
  • Acompanhamento de doador renal vivo.
  • Discordância clínica entre creatinina e quadro renal.

O que eleva

  • Queda real da TFG (DRC, IRA).
  • Hipertireoidismo (eleva por aumento do turnover celular).
  • Uso de corticoides em altas doses.
  • Tabagismo crônico.
  • Inflamação sistêmica intensa.

O que reduz

  • Recuperação da função renal.
  • Hipotireoidismo (reduz turnover celular).

Pedir junto com

  • +Creatinina sérica (calcular eGFR combinado CKD-EPI Cr-Cys).
  • +Ureia.
  • +Microalbuminúria / RAC.
  • +Urina tipo 1.
  • +Hemograma + ferritina (em DRC avançada).

Por que cistatina C supera a creatinina em medicina preventiva

A creatinina depende criticamente da massa muscular. Um idoso de 75 anos, 60 kg, sarcopênico, pode ter creatinina de 0,9 mg/dL — aparentemente normal — quando sua TFG real já está em 40 mL/min/1,73m² (DRC G3b). Esse paciente recebe contraste iodado, AINE ou metformina como se tivesse rins normais — e desenvolve injúria renal aguda evitável.

A cistatina C, nesse mesmo paciente, estaria em 1,5-1,8 mg/L, revelando claramente a DRC. É por isso que sociedades internacionais (KDIGO, NKF) hoje recomendam que toda decisão clínica importante em paciente com creatinina 'limítrofe' seja confirmada com cistatina C.

Estudos prospectivos (Shlipak et al., NEJM 2013) mostraram que a cistatina C prediz mortalidade cardiovascular e mortalidade total melhor do que a creatinina — porque captura a DRC oculta que a creatinina perde.

Quando NÃO confiar na cistatina C

  • Hipertireoidismo descompensado: cistatina C falsamente alta.
  • Hipotireoidismo grave: cistatina C falsamente baixa.
  • Uso recente de pulsoterapia com corticoide.
  • Inflamação sistêmica intensa (sepse aguda).

Cálculo do eGFR — qual fórmula usar

A fórmula recomendada hoje é a CKD-EPI 2021 sem coeficiente racial. Quando se dispõe de creatinina e cistatina C, a equação combinada (CKD-EPI Cr-Cys 2021) é a mais precisa — reduz a taxa de erro em ~25% comparada à creatinina isolada.

Calculadoras gratuitas: NKF eGFR Calculator, MDCalc CKD-EPI 2021.

Sinais de alerta

  • !Cistatina C > 1,3 mg/L em paciente assintomático = DRC oculta. Investigar causa e proteger o rim.
  • !Cistatina C subindo > 0,3 mg/L em 1 ano = perda acelerada de função renal.

Referências

  • KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD. Kidney International Supplements, 2024.
  • Inker LA et al. New creatinine- and cystatin C-based equations to estimate GFR without race. NEJM, 2021;385:1737-1749.
  • Shlipak MG et al. Cystatin C versus creatinine in determining risk based on kidney function. NEJM, 2013;369:932-943.